Eu sempre soube. No fundo eu sempre tive perfeita noção que este traço neurótico um dia ia dar cabo de algo bom, de algo genuíno. Já tentei analisar esta particularidade (há quem lhe chame uma parte de mim, eu apenas lhe chamo de defeito) vezes e vezes sem conta e não consigo perceber o porquê de ser assim para que possa pôr um fim a isto de uma vez por todas. Esta incapacidade de estar sozinha e necessidade constante de me rodear de pessoas, de ocupar o meu tempo com alguma coisa. Esta dependência doentia de alguém para me fazer companhia. Não sei se tenho medo de acabar como ela. Ou talvez por te ter perdido tão cedo queira aproveitar todos os segundos ao máximo. E eu sabia que algum dia alguém ia acabar por reparar e por me apontar o dedo. Por me julgar e me dizer "tens de mudar", quando mal sabem o quanto eu me repreendo por ser assim. A verdade é que o tentei esconder durante tanto tempo e até nem era difícil porque repartia o meu tempo por várias pessoas e todas elas eram suficientes para não me sentir tão só. Mas contigo é diferente: porque parece que já ninguém é suficiente, que só tu é que és capaz de preencher este vazio gigante que nunca desaparece. E por isso me custa tanto não poder estar contigo. Por isso dói tanto imaginar uma vida sem ti. E eu sabia que tu um dia ias reparar. Agora resta saber se mesmo assim tu consegues ficar.