Viver na dúvida, viver com a nostalgia de saber que tudo acaba por mudar, que as pessoas se vão embora e que tudo fica perdido. Desistir? Não sou uma desistente. Lutar? Talvez. Mas afinal, para quê? Para quê, se tudo muda?
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
sábado, 26 de dezembro de 2009
luggage

Vou buscar aquela mala azul enorme ao sótão e coloco-a aberta sobre a cama. Estou farta. Farta de viver numa casa onde tudo me faz voltar a ti, onde tudo me recorda de ti. Não, não são as tuas fotografias emolduradas dispostas na sala que me perturbam. É tudo o resto. Os armários que abro no teu quarto e que ainda têm as tuas roupas, com o teu cheiro (incrível, depois de tantos anos); as estantes repletas de livros que tu compraste e nos quais deixaste a tua marca, a tua assinatura; os CDs gravados e escolhidos por ti. São os quadros pendurados que tu pintaste, as telas e tintas guardaste que tu usaste. Estou cansada. Cansada de viver numa casa da qual tu quase não usufruíste, numa casa onde tudo te pertence, até eu mesma. Até este coração que tu deixaste.
A mala começa a ficar demasiado cheia. Vou buscar outra. E outra. E outra. Todas ficam facilmente cheias. Não de roupa, não de objectos, mas de recordações, de sentimentos e de lágrimas. No fundo, sei que não passo de uma fraca, de uma covarde. Não consigo, não conseguirei abandonar esta casa, exactamente pelo mesmo motivo pelo qual fui tentada a fazê-lo: tudo me lembra de ti. Não quero deixar as tuas memórias para trás e então, desfaço as malas e volta a guardá-las no sótão.
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
«Podemos suportar as desgraças que vêm do exterior: são acidentes. Mas sofrer pelas nossas próprias faltas... Ah!, é esse o tormento da vida.»
Oscar Wilde
Oscar Wilde
É engraçado. É engraçado como simples gestos, meros actos podem estragar toda uma vida construída ao lado de alguém. É engraçado como, nas alturas em que achamos que estamos a agir correctamente, em prol de uma pessoa que amamos, somos capazes de arruinar o seu mundo e de desfazer o seu coração em pedaços. Não sei como o fiz (ou talvez saiba minimamente), não sei porque razão o fiz. Sei que fiz o errado, o que não queria ter feito, o que me arrependo seriamente de ter feito. Mas fi-lo e sei que voltar atrás será impossível e dificilmente será remediado. Desiludi-te, magoei-te, atraiçoei-te. Chama-lhe o que quiseres. Traí e destruí a confiança que depositavas em mim, rompi com a nossa ligação que tão forte havia se tornado em tão pouco tempo. Bem me parecia que era bom demais. Talvez se fosse com outra pessoa, ela fosse capaz de me perdoar. Tu não, tu nunca. Mas não te culpo, quem sabe eu não faria bem pior.Eu sei. Sei que agi mal, agi instintivamente. Disse que não me queria intrometer mas, como sempre, acabei por fazê-lo e arruinei tudo. E, como sempre, no final fui eu quem saiu magoada, fui eu quem saiu com as culpas, fui em quem fez asneiras. Não posso pensar mais no assunto e tenho noção de que tenho que seguir em frente. Talvez a nossa amizade não fosse assim tão forte, talvez a futilidade e a superficialidade sempre tenham estado presentes e eu sempre tive a esperança de que fosse algo mais. Talvez não me seja assim tão difícil viver sem ti. Mas é difícil saber que te magoei e ver a tua expressão de desapontamento todos os dias, tudo porque eu errei.
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