
Vou buscar aquela mala azul enorme ao sótão e coloco-a aberta sobre a cama. Estou farta. Farta de viver numa casa onde tudo me faz voltar a ti, onde tudo me recorda de ti. Não, não são as tuas fotografias emolduradas dispostas na sala que me perturbam. É tudo o resto. Os armários que abro no teu quarto e que ainda têm as tuas roupas, com o teu cheiro (incrível, depois de tantos anos); as estantes repletas de livros que tu compraste e nos quais deixaste a tua marca, a tua assinatura; os CDs gravados e escolhidos por ti. São os quadros pendurados que tu pintaste, as telas e tintas guardaste que tu usaste. Estou cansada. Cansada de viver numa casa da qual tu quase não usufruíste, numa casa onde tudo te pertence, até eu mesma. Até este coração que tu deixaste.
A mala começa a ficar demasiado cheia. Vou buscar outra. E outra. E outra. Todas ficam facilmente cheias. Não de roupa, não de objectos, mas de recordações, de sentimentos e de lágrimas. No fundo, sei que não passo de uma fraca, de uma covarde. Não consigo, não conseguirei abandonar esta casa, exactamente pelo mesmo motivo pelo qual fui tentada a fazê-lo: tudo me lembra de ti. Não quero deixar as tuas memórias para trás e então, desfaço as malas e volta a guardá-las no sótão.
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