sábado, 5 de janeiro de 2008

Dad...


Era para ti que eu costumava viver.
E agora? Para quem ei-de viver agora?

Nunca fiz o suficiente, nunca aproveitei tanto como devia. Não sabia que poderia ter consequências tão drásticas. Era tão nova. Tinha idade suficiente para entender, claro. E acabei por entender. Sofri também. Mas agora sofro mais, muito mais. Talvez por ter amadurecido tanto e de me fazeres mais falta nesta altura da minha vida. Talvez por tomar consciência de que nem tudo é eterno, que acidentes acontecem e o que hoje nos é dado como garantido, amanhã pode mudar drasticamente. Talvez por me aperceber que fui uma idiota e que fiz sempre tudo errado em relação a ti. Ainda não encontrei a explicação adequada, mas sofro todos os dias, uns mais que outros.
Sonho contigo tantas vezes! Acordo ofegante e transpirada. As recordações desses sonhos nunca são muito exactas, ainda não consegui perceber bem porquê.
O meu maior desejo era nunca te esquecer, lembrar-me de ti sempre, recordar-me do teu sorriso com um simples piscar de olhos. Mas quando me tento lembrar de ti, sei que a imagem que tenho tua está cada vez mais desfocada. Preciso de recorrer a fotografias. Um pouco rdículo, não? Lembro-me de tantos momentos que passei na tua companhia, lembro-me da tua maneira de ser, da maneira como sorrias para mim e me abraçavas sempre que eu precisava. Da maneira como me dirigias cada palavra e da maneira como vivias, tão única e tão especial. Do orgulho que sempre sentiste na nossa família, da tua expressão quando te chateavas com alguém e do facto de tomares sempre aqueles que te rodeiam em consideração, de pensar neles antes de pensares em ti e de baseares as tuas decisões nisso mesmo. E eu, simplesmente, nunca soube tirar proveito disso. A inocência própria duma criança que não se apercebe deste tipo de situações. Nunca havia pensado num futuro sem ti. Nem me despedi, sequer. Culpo-me todos os dias. Não por te teres ido embora, mas por não ter visto o teu rosto antes de partires, por não te ter dito o quanto eras (e és) importante para mim, o quanto te amava e que eras o melhor do mundo e das melhores pessoas que eu poderia algum dia conhecer.

Gostava tanto que estivesses junto de mim. Gostava que me visses agora. Cresci tanto! Mudaste-me tanto. Sim, foste tu. O mérito é todo teu (e dela também, eu sei). Acho que te ias orgulhar da pessoa que me tornei nestes últimos anos. Amadureci muito (talvez até demais, tomando em conta a minha idade), perdi aquelas manias estúpidas e aquela maldade que é tão comum na maioria das crianças, aprendi a verdadeira distinção entre o bem e o mal e deitei ao lixo todos aqueles que me rodeavam e que eram constituídos por pura e simples falsidade. Comecei a ser eu mesma e impedi que a opinião dos outros influenciasse, de maneira alguma, as minhas decisões. Quando olho para mim, revejo-te. Dizem que estou parecida contigo e, para mim, é dos maiores elogios que me podem fazer.
Alcancei tantos objectivos! E ainda tenho tantos por alcançar. Desejava que os pudesse alcançar na tua companhia, que me ajudasses a alcançá-los. Gostava que me tivesses ensinado coisas comuns do dia-a-dia, coisas que tive de aprender sozinha, à minha maneira. Gostava que ainda me continuasses a ensinar tudo o que preciso de saber para sobreviver sozinha.
E, sabes, nunca a deixo sozinha. Tu sabes que não. Estou sempre aqui para a apoiar e nunca deixo que ela se vá abaixo. Não posso. Preciso de ser forte por mim e por ela, eu sei. Já sou uma mulherzinha agora, posso tomar conta de nós duas.

Só pedia que as coisas tivessem sido diferentes. Toda a gente me diz o mesmo: que tenho que ser FORTE e que tu não ias gostar de me ver a sofrer. Eu sei que é verdade, mas não deixa de ser difícil, sabes? Tento seguir sempre aquilo que me dizem. Penso em ti, mas tento pensar sempre em coisas positivas. Mas sou um ser humano, tenho os meus pontos fracos e também me vou abaixo, sem ninguém saber de nada. Sozinha, fechada no quarto, soluço baixinho para não me ouvirem. E deixo as minhas frustrações e toda a minha mágoa trancadas numa gaveta e partilho os meus sentimentos e as minhas palavras contigo. Estas lágrimas que percorrem a minha face são tuas. Pertencem-te e nunca ninguém as irá roubar de ti, de NÓS. Tu farás sempre parte de mim. Trago-te sempre comigo.

À noite, quando tenho a possibilidade de olhar para o céu e vejo a estrela mais brilhante, gosto de pensar que és tu, a olhar por mim, a olhar por todos nós. Sei que, estejas onde estiveres, estás em paz e não sofres mais.

A ti, meu PAI.

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